Como tuda muda
Mudança. Engraçado ter escrito sobre
isso há dez anos atrás e hoje continuar sendo tão significante para mim. O
quanto uma vida pode mudar em 10 anos?
Vamos ver... Há 10 anos atrás eu escrevia esse meu primeiro post no blog com
meu primeiro filho sendo gerado em meu ventre, saindo de São Paulo e vindo
morar com a minha mãe, temporariamente na casa da minha vó, e pensando se algum
dia eu ia ser adulta de verdade.
Hoje meu segundo filho dorme no quarto ao lado do meu apartamento, com o irmão
de nove anos jogando videogame, e eu me preocupo com boletos, coisas de escola,
as organizações que precisam ser feitas em casa, sobre as coisas que preciso
correr atrás em relação a minha vida pessoal (afinal as crianças já estão
grandes), quais formas de ensinar meus filhos a serem gente do bem no futuro, e
se eu estou sendo gente do bem o suficiente comigo e com outros para que eu
realmente durma em paz.
E isso é apenas um pouco das coisas que me passam pela mente, ou seja, sim. Em
algum momento, nesses dez anos que passou, eu me tornei adulta. Em alguns dias,
confesso, que gostaria de não ser, e acredito que 99% dos adultos concordam
comigo. Outros dias eu consigo passar sem perceber a seriedade com que venho
tomando minhas decisões. E ainda tem aqueles que são as crianças que vem me
lembrar como é sorrir sentindo apenas esse momento, o presente.
Acredito que a “adultice” carrega uma grande falta de imaginação nas costas
(slime? como as crianças se interessam por essa coisa melequenta?), mais um
tanto de dúvidas em relação ao passado (sério que eu achava que terminar com
aquela pessoa seria o fim da minha vida? faltou mesmo mais instruções de como
fazer o imposto de renda na escola e aulas sobre como não enlouquecer quando o
país enfrenta crises políticas), e um tanto mais de incertezas em relação ao
futuro (será que meus filhos saberão escolher os amigos e dizer não as coisas
erradas? será que essa empresa tem a estabilidade que preciso? será que o mundo
não vai acabar comigo descalça de um pé, com a xícara de café na mão, correndo
para tirar a roupa do varal?)
É. A vida muda sim em dez anos. As cidades mudam. As pessoas mudam. As
expectativas mudam. Até a alma muda. Se transforma. Se alinha. Se adapta. Se
torna. Se desfaz. E logo depois de um tempo, torna a se fazer.
Meu jeito de escrever
já não é igual a antes. Presto mais atenção nos pontos ortográficos, me
questiono até onde posso preservar minha vida pessoal, mesmo na era da rede
social tão exposta, existe mais profundidade nas minhas palavras, menos
preocupação com o que os outros possam concluir de mim, e por último, mas não
menos importante, o quanto que voltar a escrever pode me ajudar.
Gosto de tirar conclusões sobre o que a vida significa de verdade, quais os propósitos
que as pessoas se sustentam, qual o sentido dessa minha pequena consciência de existência
nesse universo vasto. Se a vizinha de baixo vai aguentar mais algum tempo com
as crianças pulando e correndo pela fina camada de concreto que nos separa. Tomara
que pelo menos até eu me mudar para uma casa de verdade.
A “adultice” tem suas vantagens. Já não tenho receio de falar em público, ouço
com mais atenção as pessoas mais velhas, consigo traduzir de forma honesta o
que estou sentindo (nem sempre), meus filhos me obedecem quando começo a contar
“1... 2...” em tom de aviso (isso é sempre), meu
cabelo não sofre mais com as impulsividades de uma garota indecisa, tenho
preferencia pelo arroz e feijão ao invés das trezentas e vinte e cinco coisas
que a vendinha da esquina proporcionava (e que sempre me doíam o estomago), realmente
dou valor aos professores tanto dos meus filhos quanto aos meus (minha mãe, minha
rede de apoio, meus remédios e o dono da mercearia na esquina de casa), já não
acho que religião e espiritualidade sejam para pessoas fracas, não acredito no papai
noel (no fundo chega a ser desvantagem), nem no politico que ilude na TV, de
alguma forma, acredito que existem mais pessoas boas do que ruins, mas que
sempre estão ocupadas tentando viver (ou sobreviver).
Esse não era para ser um post sério ou profundo, nem leve como se a vida fosse
mais uma foto e legenda de efeito em rede social. Nem tudo é preto no branco,
entendo isso agora. Me esforço entre escrever um texto longo contando em resumo
tudo que passei desde o meu primeiro post, ou um texto tão pequeno que caiba
somente na tela de um celular. Talvez eu possa me satisfazer ao pensar que não
demorarei mais dez anos para voltar a escrever.
De qualquer forma, desligo o notebook, troco minha roupa para dormir, mas não
sem antes confirmar se as crianças continuam no mesmo lugar. Afinal, com tanta
mudança, quem sabe eles se eles ainda estão por lá?


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